Tenho uma mania que é apanhar os tiques das pessoas e
imitá-las.
Já em pequena, pelos 3 anos, imitava a minha mãe, uma pessoa
com expressões e trejeitos muito característicos. Aquilo era uma festa na casa
da minha tia sempre que apanhava a minha mãe distraída, não fosse eu ver
aqueles olhos do demo e acabar-se logo ali a risota (eu ainda sou do tempo em
que bastava um dos pais arregalar os olhos, com "aqueles" olhos, para
ficar tudo em sentido. Quer dizer, às vezes).
Qual macaquinha bem mandada, bastava que me dissessem
"Imita lá a tua mãe, que ela não está a ver. Como é que ela faz?", e
lá ia eu a correr buscar uma cadeira, trocava a perna, fingia tirar um cigarro
e de nariz empinado lá ensaiava, ainda sem diccionar bem as palavras, um
qualquer raspanete da praxe com voz meio anasalada - não sei onde a minha mãe
apanhou estas coisas, pois ela está para Cascais como eu estou para Mirandela:
nada a ver.
E lá riam todos, para meu deleite.
Os anos foram passando, a criança cresceu em tamanho, mas em
espírito nem sempre.
Embora tenha um trabalho que exija uma postura séria, de vez
em quando lá abro uma excepção, ainda que involuntariamente. Sem querer, já dei
comigo a encenar enquanto relato determinados episódios entre colegas. Sai-me!A
seriedade da situação é então rapidamente desmanchada pelos risos, "É que
é mesmo assim! Faça lá oura vez!".
A preferência vai para a imitação do sotaque de uma senhora
ucraniana. Aconteceu numa situação e ninguém se esqueceu.
Hoje, cheguei lá abaixo aborrecida com um assunto. A técnica
daquelas sacaninhas (expressão usada com carinho) é desarmarem-me com
"Deixe lá isso! Imite lá o sotaque da Dr. X, para nos rirmos todos um
bocadinho! Vá lá".
Sorrio. Mas já não tenho 3 anos e o bom senso aconselha-me a
recusar delicadamente.
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