quarta-feira, 22 de julho de 2015

O meu herói


 Costumo falar muito sobre os conselhos que o meu pai me dá, que me ensinam muito, ainda que agora em idade adulta, por vezes me recuse a aceitá-los (frequentemente dando-lhe razão mais tarde) ou lhes torça o nariz. Faz parte. Mas oiço-os sempre porque, para mim, o meu pai é a imagem da sabedoria, da força, da coerência, da perseverança - é tudo o que um dia eu gostava de ser. Gostava de ser Grande. Só não acho possível vir a conseguir ser como ele porque aí não há hipótese...o meu pai é, simplesmente, Enorme.
Ontem, a lição veio da forma mais chocante e mais crua, sem espaço ou tempo para as palavras.
Após o jantar, o meu pai quis ir visitar a minha tia, irmã dele. Nunca acontece durante a semana, mas ontem, bem, ontem parece que “tinha de ser”. Quis a companhia da minha mãe que, por estar atarefada com arrumações e outros assuntos, recusou ir. “Porque não vamos amanhã e eu hoje acabo isto?”, ainda perguntou - “Porque não, porque quero ir hoje. E vou.”.
Aquele homem, que detesta andar sozinho e tem sempre a necessidade de ir a falar com alguém, não saiu sem antes ir desafiar-me ao quarto. Eu, qual velha, a desfazer-me de cansaço frente à televisão depois de um dia extenuante de trabalho (pronto, estou a dramatizar, era preguiça mesmo), ainda arrisquei um "não me apetece" mas lá fui convencida.
Chegados à casa da minha tia, pelas 21:30h, silêncio total.
Pessoas normais teriam pensado que não estava ninguém em casa, ou que já estava tudo a dormir, teriam rodado os calcanhares e ido embora. Mas não, nós não somos normais. O meu pai não descansou enquanto não soube da irmã. Ora batia à porta, ora tentava o telemóvel, ora o telefone fixo que insistentemente ouvíamos tocar lá dentro.
Algum tempo depois, a porta abriu-se. Descalça, de vestido atabalhoadamente enfiado por cima da camisa de dormir, a minha tia recebeu-nos com um sorriso. Já estava deitada, "ah mas uma visita sabe sempre bem".
Sentámo-nos no pátio em redor da mesa de jardim, onde mais tarde apareceram os meus dois primos que se juntaram à conversa. O convívio ia animado, tudo a falar ao mesmo tempo de forma ruidosa e confusa, como é hábito nesta família de gente maluca. Até que de repente, a algazarra foi interrompida pelo meu pai que, estando sentado de frente para a irmã, reparou que ela não se mexia há algum tempo.
"Estás a sentir-te bem?" - não obteve resposta. Foi então que olhei para a minha tia e fiquei aterrorizada. De olhos abertos, parados e vidrados no infinito, cabeça ligeiramente tombada para a frente, ela não tinha qualquer reacção. Começámos a abaná-la mas o corpo não respondia, a expressão não se alterava, olhos vidrados no infinito. Não respirava, parecia estar morta.
O meu pai saltou imediatamente da cadeira e começou a manobra de reanimação, respiração boca a boca (uma força capaz de encher um pneu), 1,2,3...nada.
Os meus primos entraram em pânico, um pânico bloqueador entre choro e gritos, "Ai a minha mãe morreu, a minha mãe está morta", às voltas pelo pátio de mãos na cabeça, pareciam ter perdido a capacidade de raciocínio e de acção.
Tentando manter a frieza de espírito, que não sei onde fui buscar, peguei no telemóvel para chamar o INEM. Responder de forma calma e correcta à meia dúzia de perguntas que me fizeram mas que naquele momento me pareciam intermináveis, não foi tarefa fácil.
Dois minutos. O meu pai continuava ainda sem sucesso, a manobra de reanimação. Respiração boca a boca, 1, 2, 3, nada. Três minutos....quatro minutos...Há quanto tempo já estaria assim? Ele não desistia. Mais ar, 1, 2, 3....foi então que ouvimos um inspirar profundo, um "ai" sumido e arrastado.
"Ela está a reagir!", gritava-se. Respirou-se de alívio.
Aos poucos, até a ambulância chegar, ela foi estabilizando e os ânimos foram acalmando. Operada ao coração há cerca de dois anos, tinha tido uma paragem cardiorrespiratória.

Foi então já no carro, a caminho do hospital, que comecei a pensar em tudo aquilo e no rol de "ses" que me assaltaram. E se o meu pai não estivesse ali? E se nós não estivéssemos lá, se o meu pai não tivesse insistido à porta, teria ela morrido durante o sono? Pior, e se tivesse sido com o meu pai, o que é que eu faria? De cinco irmãos, dois faleceram de ataque cardíaco, o meu pai foi o último a ser operado, impossível não pensar nisso nem que seja como mera hipótese...olhei para ele. Ia a conduzir, certamente preocupado mas sereno, com aquela expressão impenetrável que o caracteriza.
Nunca vi o meu pai chorar. Nunca vi o meu pai não saber o que fazer, impressionante, sabe sempre. Resolve sempre, com a lucidez e o sentido prático que ninguém consegue manter. Tem aquela força que poucos têm...caramba, queria ser como ele.
No meio do silêncio, desabafei "Julguei que a tia estivesse morta".
"É um erro pensar isso. Nunca se desiste de uma pessoa por pensar que está morta. Tenta-se sempre, o tempo que for preciso, sem desistir até mesmo ao fim". Tem razão. Foi o que o meu pai fez, não desistiu quando todos tinham desistido, e graças a isso, hoje a minha tia está viva.

Sem comentários:

Enviar um comentário