No domingo, contrariamente ao que
acontecia há alguns anos, não consegui ficar na cama até tarde (ser crescido
tem destas coisas: durante a semana maldizemos o despertador e a vida, ansiamos
todos os dias pelo fim de semana e depois, quando podemos ficar na ronha,
acordamos ainda mais cedo, toma lá!).
Decidi levantar-me e ir tomar
calmamente o pequeno almoço à esplanada por baixo da minha casa.
Enquanto apreciava este raro
grande prazer que é apanhar o sol da manhã, reparei no letreiro colocado à porta
da igreja, logo ali ao lado. Lembrei-me de repente do email que tinha recebido
na sexta-feira com um apelo e que, com a pressa egoísta dos afazeres
“prioritários”, não tinha lido convenientemente.
Ali estava eu. A sala estava praticamente vazia, apenas duas pessoas sentadas, o que achei triste.
Estava a decorrer uma recolha de
amostras de sangue para encontrar dador de medula óssea compatível com uma
pessoa que aqui trabalha e que necessita urgentemente de um transplante.
Tenho absoluto pavor de agulhas.
Sou daquelas mariquinhas que diz que vai desmaiar, que não pode olhar e que até
aos 21 anos levava sempre alguém às análises para segurar a mão. Já depois dos 25 ainda levei companhia para a sessão de "ais" da vacina do tétano...verdadeiramente irracional e embaraçoso.
Sem pensar muito, tentando ignorar a minha cagarolice, entrei na igreja e dirigi-me à sala onde estavam a fazer a recolha. Só então me apercebi que, apesar de
viver ali há mais de 20 anos, os únicos motivos “nobres” que me fizeram entrar
naquela igreja foram para cantar no coro - no qual só entrei porque era
apaixonada por um rapazinho que lá estava, ah!, a nobreza do Amor – e para ir
a uma missa do galo com uma amiga que insistiu muito comigo.Ali estava eu. A sala estava praticamente vazia, apenas duas pessoas sentadas, o que achei triste.
"É para quê?", perguntaram. Afinal, a recolha tinha mais finalidades. "É para medula óssea", respondi apressadamente ao lembrar-me das "litradas" de sangue que sacam a quem ali se deita.
Seguiu-se o preenchimento dos papéis e depois a consulta médica. Quando entrei naquele gabinete, confesso que ainda não tinha amadurecido a ideia e que não sabia nada sobre os procedimentos propriamente ditos, para além daquilo que é do conhecimento geral.
Com muita paciência e de forma extremamente pormenorizada, foi-me explicado que existe dois métodos de colheita de células para transplantação de medula: uma em que as células são colhidas do interior dos ossos da bacia, através de uma intervenção cirúrgica que exige 24 horas de internamento; e outra, para alguns casos, em que a colheita é feita no sangue periférico a partir de uma veia do braço, exigindo algum tempo de preparação medicamentosa.
Sem eu notar, a minha expressão facial devia ir mudando ao sabor das dúvidas pelo que, a dado momento, a médica sentiu a necessidade de parar e de me tranquilizar: "Claro que pode sempre arrepender-se e retirar o consentimento, mesmo depois de se encontrar um doente com quem seja compatível! Mas aí..." - "Aí eu jamais diria que não.", respondi.
Foi nesse momento que me apercebi do ridículo e da pequenez dos meus medos.
Medo de quê, de agulhas? O que é o medo de agulhas perto do medo de perder a vida, de não ter tempo para viver tudo o que ainda não se viveu?
A probabilidade de se encontrar um dador compatível, no mundo inteiro, é reduzidíssima. Quem se propõe a ser dador de medula óssea, não pode ignorar o tamanho da responsabilidade que tem em mãos. Que género de carácter teria a coragem e a hipocrisia de dar esperança a alguém e, em seguida, roubá-la com um fútil "não"?
Se eu não tinha essa consciência, ganhei-a ali, naquele momento. Não sei o que me levou àquela igreja, não sei se aquilo que me fez mexer foi puro altruísmo ou o egoísmo de me querer sentir bem. Mas que interessa?
Interessa fazer.
Perdemos demasiado tempo a tentar ser a diferença na vida de quem não quer que façamos parte dela, mas mesmo assim preocupamo-nos, lamentamos demasiado aquilo que simplesmente não depende de nós. Choramos e massacramo-nos pelo trabalho chato, pelos sonhos (ainda) não alcançados, pelas pessoas e as oportunidades que deixamos escapar entre os dedos...mas temos a vida toda para superar, mudar e encontrar o que nos faz feliz.
Enquanto isso, ao nosso lado ou em qualquer parte do mundo, existe alguém à espera apenas da oportunidade de ter tempo para fazer esse caminho. E é exactamente aí que quero poder fazer a diferença. Sem dúvida.
Sentei-me na cadeira, estendi o braço e virei a cara. Afinal, não doeu nada.
Seguiu-se o preenchimento dos papéis e depois a consulta médica. Quando entrei naquele gabinete, confesso que ainda não tinha amadurecido a ideia e que não sabia nada sobre os procedimentos propriamente ditos, para além daquilo que é do conhecimento geral.
Com muita paciência e de forma extremamente pormenorizada, foi-me explicado que existe dois métodos de colheita de células para transplantação de medula: uma em que as células são colhidas do interior dos ossos da bacia, através de uma intervenção cirúrgica que exige 24 horas de internamento; e outra, para alguns casos, em que a colheita é feita no sangue periférico a partir de uma veia do braço, exigindo algum tempo de preparação medicamentosa.
Sem eu notar, a minha expressão facial devia ir mudando ao sabor das dúvidas pelo que, a dado momento, a médica sentiu a necessidade de parar e de me tranquilizar: "Claro que pode sempre arrepender-se e retirar o consentimento, mesmo depois de se encontrar um doente com quem seja compatível! Mas aí..." - "Aí eu jamais diria que não.", respondi.
Foi nesse momento que me apercebi do ridículo e da pequenez dos meus medos.
Medo de quê, de agulhas? O que é o medo de agulhas perto do medo de perder a vida, de não ter tempo para viver tudo o que ainda não se viveu?
A probabilidade de se encontrar um dador compatível, no mundo inteiro, é reduzidíssima. Quem se propõe a ser dador de medula óssea, não pode ignorar o tamanho da responsabilidade que tem em mãos. Que género de carácter teria a coragem e a hipocrisia de dar esperança a alguém e, em seguida, roubá-la com um fútil "não"?
Se eu não tinha essa consciência, ganhei-a ali, naquele momento. Não sei o que me levou àquela igreja, não sei se aquilo que me fez mexer foi puro altruísmo ou o egoísmo de me querer sentir bem. Mas que interessa?
Interessa fazer.
Perdemos demasiado tempo a tentar ser a diferença na vida de quem não quer que façamos parte dela, mas mesmo assim preocupamo-nos, lamentamos demasiado aquilo que simplesmente não depende de nós. Choramos e massacramo-nos pelo trabalho chato, pelos sonhos (ainda) não alcançados, pelas pessoas e as oportunidades que deixamos escapar entre os dedos...mas temos a vida toda para superar, mudar e encontrar o que nos faz feliz.
Enquanto isso, ao nosso lado ou em qualquer parte do mundo, existe alguém à espera apenas da oportunidade de ter tempo para fazer esse caminho. E é exactamente aí que quero poder fazer a diferença. Sem dúvida.
Sentei-me na cadeira, estendi o braço e virei a cara. Afinal, não doeu nada.
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