Costumo falar muito sobre os conselhos que o meu pai me dá,
que me ensinam muito, ainda que agora em idade adulta, por vezes me recuse a
aceitá-los (frequentemente dando-lhe razão mais tarde) ou lhes torça o nariz.
Faz parte. Mas oiço-os sempre porque, para mim, o meu pai é a imagem da
sabedoria, da força, da coerência, da perseverança - é tudo o que um dia eu
gostava de ser. Gostava de ser Grande. Só não acho possível vir a conseguir ser
como ele porque aí não há hipótese...o meu pai é, simplesmente, Enorme.
Ontem, a lição veio da forma mais chocante e mais crua, sem
espaço ou tempo para as palavras.
Após o jantar, o meu pai quis ir visitar a minha tia, irmã
dele. Nunca acontece durante a semana, mas ontem, bem, ontem parece que “tinha
de ser”. Quis a companhia da minha mãe que, por estar atarefada com arrumações
e outros assuntos, recusou ir. “Porque não vamos amanhã e eu hoje acabo isto?”,
ainda perguntou - “Porque não, porque quero ir hoje. E vou.”.
Aquele homem, que detesta andar sozinho e tem sempre a
necessidade de ir a falar com alguém, não saiu sem antes ir desafiar-me ao
quarto. Eu, qual velha, a desfazer-me de cansaço frente à televisão depois de
um dia extenuante de trabalho (pronto, estou a dramatizar, era preguiça mesmo),
ainda arrisquei um "não me apetece" mas lá fui convencida.
Chegados à casa da minha tia, pelas 21:30h, silêncio total.
Pessoas normais teriam pensado que não estava ninguém em
casa, ou que já estava tudo a dormir, teriam rodado os calcanhares e ido
embora. Mas não, nós não somos normais. O meu pai não descansou enquanto não
soube da irmã. Ora batia à porta, ora tentava o telemóvel, ora o telefone fixo
que insistentemente ouvíamos tocar lá dentro.
Algum tempo depois, a porta abriu-se. Descalça, de vestido
atabalhoadamente enfiado por cima da camisa de dormir, a minha tia recebeu-nos
com um sorriso. Já estava deitada, "ah mas uma visita sabe sempre
bem".
Sentámo-nos no pátio em redor da mesa de jardim, onde mais
tarde apareceram os meus dois primos que se juntaram à conversa. O convívio ia
animado, tudo a falar ao mesmo tempo de forma ruidosa e confusa, como é hábito
nesta família de gente maluca. Até que de repente, a algazarra foi interrompida
pelo meu pai que, estando sentado de frente para a irmã, reparou que ela não se
mexia há algum tempo.
"Estás a sentir-te bem?" - não obteve resposta.
Foi então que olhei para a minha tia e fiquei aterrorizada. De olhos abertos,
parados e vidrados no infinito, cabeça ligeiramente tombada para a frente, ela
não tinha qualquer reacção. Começámos a abaná-la mas o corpo não respondia, a
expressão não se alterava, olhos vidrados no infinito. Não respirava, parecia
estar morta.
O meu pai saltou imediatamente da cadeira e começou a
manobra de reanimação, respiração boca a boca (uma força capaz de encher um
pneu), 1,2,3...nada.
Os meus primos entraram em pânico, um pânico bloqueador
entre choro e gritos, "Ai a minha mãe morreu, a minha mãe está
morta", às voltas pelo pátio de mãos na cabeça, pareciam ter perdido a
capacidade de raciocínio e de acção.
Tentando manter a frieza de espírito, que não sei onde fui
buscar, peguei no telemóvel para chamar o INEM. Responder de forma calma e
correcta à meia dúzia de perguntas que me fizeram mas que naquele momento me
pareciam intermináveis, não foi tarefa fácil.
Dois minutos. O meu pai continuava ainda sem sucesso, a
manobra de reanimação. Respiração boca a boca, 1, 2, 3, nada. Três
minutos....quatro minutos...Há quanto tempo já estaria assim? Ele não desistia.
Mais ar, 1, 2, 3....foi então que ouvimos um inspirar profundo, um
"ai" sumido e arrastado.
"Ela está a reagir!", gritava-se. Respirou-se de
alívio.
Aos poucos, até a ambulância chegar, ela foi estabilizando e
os ânimos foram acalmando. Operada ao coração há cerca de dois anos, tinha tido
uma paragem cardiorrespiratória.
Foi então já no carro, a caminho do hospital, que comecei a
pensar em tudo aquilo e no rol de "ses" que me assaltaram. E se o meu
pai não estivesse ali? E se nós não estivéssemos lá, se o meu pai não tivesse
insistido à porta, teria ela morrido durante o sono? Pior, e se tivesse sido
com o meu pai, o que é que eu faria? De cinco irmãos, dois faleceram de ataque
cardíaco, o meu pai foi o último a ser operado, impossível não pensar nisso nem
que seja como mera hipótese...olhei para ele. Ia a conduzir, certamente
preocupado mas sereno, com aquela expressão impenetrável que o caracteriza.
Nunca vi o meu pai chorar. Nunca vi o meu pai não saber o
que fazer, impressionante, sabe sempre. Resolve sempre, com a lucidez e o
sentido prático que ninguém consegue manter. Tem aquela força que poucos
têm...caramba, queria ser como ele.
No meio do silêncio, desabafei "Julguei que a tia
estivesse morta".
"É um erro pensar isso. Nunca se desiste de uma pessoa
por pensar que está morta. Tenta-se sempre, o tempo que for preciso, sem
desistir até mesmo ao fim". Tem razão. Foi o que o meu pai fez, não
desistiu quando todos tinham desistido, e graças a isso, hoje a minha tia está
viva.