terça-feira, 14 de julho de 2015

O dia em que perdi a compostura

Por aqui temos toda a espécie de animais que, amiúde, espalham o terror: milhões de mosquitos, lagartixas, ratazanas e ratinhos pequenos, baratas e pessoas.
Tirando as baratas, consigo bem lidar com todos os outros. Quer dizer, “bem” depende dos dias, que há coisas em que eu sou imprevisível. Aquela piada de que “os ursos polares gostam de frio, os bipolares uns dias gostam, noutros não” cai-me que nem uma luva, confesso.
Adiante. Ontem foi o dia da barata, esses seres capazes de me levarem aos actos mais primários de histerismo.
Reunião com 20 pessoas. Tudo a fingir um ar sério, mega profissional e coiso.
Depois de pousar os mil papéis que trazia, de óculos na ponta do nariz, puxo a cadeira e sento-me. Não aqueci o lugar nem dois minutos. Cai do tecto, mesmo à minha frente em cima da mesa, uma barata gigante, castanha e nojenta.
Caiu a barata, e caiu todo um ar sério e compenetrado de não-brinquem-comigo-eu-percebo-bué-disto (não é verdade, mas o ar é convincente). Eu e a minha colega do lado saltámos imediatamente das cadeiras e, entre gritos e movimentos irreflectidos de sacudir o cabelo, a roupa e os braços, fugimos para o lado oposto da sala, perante o olhar estupefacto de toda uma plateia divertida.
Uma barata! Não me sento aí, não consigo! Mate-a! Não, não mate! Tire-a! Ai, não consigo ver.
A dita foi eficazmente esborrachada por um homem. Não, Homem, com “H” grande que, para mim, quem me salva de uma barata, é e merece tudo de bom na vida. Senta-se. A missão teria terminado em bem, se não houvesse duas mulheres irracionais, num canto da sala, a dizer “Ela fica aí? Ai que nojo, ai não consigo. Tire-a, por favor!”
E ele lá se levantou novamente para, com uma folha e a paciência toda do mundo, remover o cadáver do local do homicídio.
Com os ânimos acalmados e entre risinhos parvos de quem toma consciência do ridículo, “Pedimos desculpa, é que foi do tecto…não sei…foi a surpresa…desculpem”, voltámos ao nosso lugar.
De queixo no ar, desconfiadas, a certificarmo-nos de que não pairava ali mais nenhuma ouvimos ainda, vinda lá do fundo da mesa, uma voz a dizer:
“Valeu a pena. O que eu gosto de ouvir mulheres a gritar.”

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