Para onde um ia, o outro ia também. Sempre juntos, lado a lado.
Todos os dias, há mais de 20 anos, quando eu entrava no café depois do almoço, lá estavam eles, invariavelmente sentados no mesmo sítio. Escolhiam sempre a mesa junto à porta.
Ele, em silêncio, lia o jornal que ocupava quase todo o tampo. Ela, depois de folhear apressadamente as revistas que trazia, levantava-se. Rebiteza, colava-se ao balcão e falava ininterruptamente com a "Fatinha", dona do café. Aposto que fazia quilómetros durante aquela hora, andando ora para a esquerda ora para a direita, contando as suas histórias enquanto a Fatinha, atarefada de um lado para o outro, aviava pães, bolos e cafés. Era disso que ela gostava, era para isso que ela lá ia todos os dias.
Tinham cerca de 75 anos e uma boa vida.
Com dinheiro em abundância, não se privavam de pequenos luxos. Ela vestia-se e maquilhava-se a rigor. Apesar dos problemas ósseos que lhe deformaram os pés, não prescindia dos seus sapatos de salto com 12 centímetros, da roupa de marca impecavelmente conjugada, da mala e acessórios a fazerem pandam. Ele era mais discreto. Sempre com o cabelo grisalho muito bem penteado, barba irrepreensivelmente aparada e umas calças de sarja que combinavam com a camisa de tons suaves. Um homem extremamente bem conservado e muito charmoso para a idade.
Nunca tiveram filhos por opção, para poderem namorar, sair e passear muito. Para "aproveitarem a vida", como ela dizia sempre. Os seus "filhotes" eram os cães e os gatos que adoptavam e os cães dos vizinhos, que faziam questão de ir buscar e passear diariamente.
Tiveram, durante mais de uma década, um cãozinho rafeiro que os acompanhava ao café. Coxo e com artroses, ele saltava do carro e deitava-se no tapete à porta do café, sabendo bem que no final tinha sempre como recompensa o pãozinho com manteiga que a dona comprava e lhe dava à boca, pedacinho a pedacinho.
Era com admiração que eu olhava para aquele casal tão unido, tão dedicado um ao outro.
Em 2012, tivemos um pequeno desentendimento. Certo dia, entrou um velhota no café que, percorrendo as mesas, ia pedindo uma moedinha a quem que ali se encontrava. Eu dei-lhe as poucas moedas que ainda tinha, e foi com o coração apertado que a ouvi agradecer mil e uma vezes, "Que Deus a abençoe sempre". Caramba, eu só lhe tinha dado uns 60 ou 70 cêntimos...! Quando a velhota parou na mesa deles, ao meu lado, nenhum lhe respondeu. Com os olhos sempre postos no jornal, deixaram a a senhora ali parada, invisível, à espera de uma palavra, de um gesto, de um olhar, até que desistiu. Fiquei indisposta com aquilo e quando a velhota abandonou o café, não fui capaz de ficar calada. Disse-lhes que aquela cena tinha sido indecente. Quem se preocupa em comprar todos os dias um pãozinho com manteiga para o cão, não pode deixar de tratar as pessoas como pessoas. A vida já tinha tirado tanto àquela velhota e eles, em menos de um minuto, tentaram tirar-lhe também a dignidade. Deplorável.
Fiquei muito desiludida e nos anos que se seguiram, pouco mais lhes disse do que o simples "boa tarde".
Só há cerca de um ano é que me fui "esquecendo" um pouco daquele episódio. O meu cão, mimado que só ele, não lhes dava hipótese quando os via. Alapava o focinho na perna dela, que, derretida, não se importava nada com a mancha de baba que ele lhe deixava na roupa cara. "Posso dar-lhe a minha torrada? Faz-me tanto lembrar o meu Joca, que adorava pão com manteiga!". E pronto, estes pequenos diálogos, lá foram amansando o meu mau feitio.
Apesar de a nossa relação nunca mais ter sido a mesma coisa, eu observava sempre enternecida aquela rotina: ele saía do café antes dela para ir buscar o carro que estacionava à porta, só para lhe poupar os pés massacrados pelos sapatos. Ainda a semana passada comentei com o meu pai que, para mim, este era um gesto de amor e de cuidado. Era assim que eu queria que fosse comigo, daqui a muitos anos.
Ontem cheguei à praia já tarde. Tinha ficado na ronha, a arrastar as tarefas básicas de almoçar, vestir, cuidar do cão. Antes de sair ainda me sentei no sofá a fazer zapping. Embora seja canal que nunca vejo, parei uns minutos a ver uma notícia "sensacionalista" da CMTV. Um casal tinha acabado de ter um acidente na CRIL, junto ao túnel do Grilo. Despistou-se e caiu do viaduto abaixo, tendo tido morte imediata. Nem uma hora passada e já lá estavam os "abutres", a acompanhar em directo o desencarceramento. Senti pena pelo casal e náuseas por fazerem daquilo espectáculo. Poucos minutos depois, não quis saber mais. Desliguei a televisão e fui à minha vida.
Hoje, novamente na praia, punha a conversa em dia com uma amiga que não via há algum tempo. Os últimos meses (dois anos, na verdade) foram um turbilhão. Lamentava-me por ter perdido alguém tão importante para mim, não o namorado, mas a Pessoa. Não sei nada dele, não temos pessoas comuns, moramos longe um do outro, e por isso tenho medo de não o voltar a ver mais, saber se está bem, se conseguiu ser feliz. Ela interrompeu-me para dizer que nada acontece por acaso, a vida dá voltas e prega partidas cujo sentido, às vezes, só encontramos muitos e muitos anos depois.
Para ilustrar isto, deu o exemplo de um casal, vizinho da porta ao lado, que dedicou a vida um ao outro. Fizeram sempre tudo juntos, nunca quiseram estar um sem o outro. E ontem, a caminho de mais um passeio feliz a dois, morreram num acidente de carro, depois de se despistarem na CRIL.
Fiquei em choque. Eram eles. A notícia que eu vi na CMTV, era sobre eles.
Desde então ainda não consegui abstrair-me disto e estou aqui sem conseguir deitar-me e adormecer. De repente esqueci a cena da velhota, a desilusão, tudo. Ficou só a pena e a tristeza de nunca mais ver aquele casal sentado na mesa junto à porta do café. Ainda tão novos, ainda com tanta vontade de passarem muitos anos na companhia um do outro.
Ainda sexta feira os vi e hoje já cá não estão. A vida vai-se num sopro e não podemos desperdiçar demasiado tempo a lamentar o que não podemos mudar, por mais duro que seja perder a pessoa que quisemos que, um dia, estivesse sentada connosco naquela mesa de café.
Apazigua-me, pelo menos, saber que morreram como sempre viveram: felizes e juntos.