terça-feira, 26 de julho de 2016

Dia dos avós #3

Pouco tempo depois do meu avô falecer, a minha avó também perdeu o andar e não havendo ninguém para dar apoio permanente, teve de ir para o lar atrás da minha casa.
Todos os dias a minha mãe a visitava e lhe levava as coisas que ela gostava e que lhe faziam lembrar o Alentejo. "Trouxeste as azeitoninhas?", "E os figos? Já estamos no tempo dos figos!"
Apesar de não andar, a minha avó sempre manteve uma lucidez e uma cabeça invejáveis. Estava sempre atenta a tudo, não lhe escapava nada e quando os familiares dos outros utentes queriam saber se eles estavam a ser bem cuidados, era à minha avó que perguntavam. Ela era o Relatório Médico em pessoa.
Eu só podia ir visitá-la ao fim de semana e, apesar de já não estarmos juntas todos os dias, a conversa era toda posta em dia durante aquela hora que eu lá estava. E falávamos sobre tudo, sobre os  meus namorados - "Ai, filha, deixa-o! Atão tu não vês que isso não vai a lado nenhum?", sempre assertiva, a minha avó - sobre as peripécias do trabalho e, mais uma vez, revivíamos as mesmas histórias de sempre. 
Ela adorava recordar, entre risos, aquela vez em que eu aos 8 ou 9 anos, já de luz apagada e pronta para dormir, lhe perguntei como se faziam os bebés. A minha avó nunca deu importância a histórias da cegonha e a todas metáforas que se usam para se explicar o processo aos miúdos. Aliás, a minha avó arrumou a "história" dela em 2 palavras: "Faz-se sexo". Toma e embrulha e eu, se quisesse, que fosse ao dicionário saber o que é sexo. Ela era assim, sem grandes "ai meu Deus", muito directa aos assuntos. Às vezes eu é que ficava surpreendida com tanta abertura, ao que ela me respondia "Que queres? Tenho de me modernizar!".
Foram muitos anos de uma rotina instalada, confortável, segura. E depois de tanto tempo passado desde a morte do meu avô, aos poucos, comecei novamente a cair no erro de achar que a minha avó seria imortal, que ia estar sempre ali e que nunca ia desaparecer. Tinha umas recaídas, mas recuperava sempre, sorridente. Habituou-me mal.
Foi depois de fazer 90 anos, no último ano, que as crises que a levavam ao hospital foram sendo mais frequentes. Tantas vezes que saí tarde do trabalho e fui, já à pressa, para o hospital para chegar a tempo de lhe dar o jantar.
Aos poucos, fui vendo menos esperança naqueles olhos. Ela, que tinha pavor de perder a lucidez - "Que Deus me leve antes de começar a dizer disparates como as outras velhas malucas. Não ando, mas tenho a minha cabeça muito boa." - de vez em quando, muito subtilmente, lá ia falhando um ou outro pormenor que denunciava que algo já não estava bem. Na minha ânsia de me certificar que ela mantinha o raciocínio rápido, de vez em quando atirava-lhe com perguntas como "Quanto é 7x9? Rápido!". Antes de eu acabar a frase (e de pensar no resultado), já ela, com uma expressão incrédula e desconfiada, estava a responder "56! Ora ora, cuidas que 'tou parva?". Era então que eu percebia o ridículo da minha pergunta...a minha avó era e sempre seria imbatível na tabuada, nos nomes dos rios, nos pronomes e noutras tantas coisas. Soube tudo isto até praticamente a hora da morte.
Tal como ela havia pedido tanto, Deus poupou-a de "ficar maluca" e de perder a noção total do mundo que a rodeava.

Foi um mês antes da sua morte que a minha avó perdeu a fala. Deve ter tido um AVC que a calou, mas estou certa que não lhe tirou aquela desconcertante capacidade de compreender as coisas e o mundo. Percebia tudo o que lhe dizíamos e sempre me reconheceu, até ao fim. Revelava-o através do sorriso rasgado que fazia sempre que me via.
Foi assim mesmo que me recebeu, no último dia que a vi com vida.
Era domingo. A minha avó já não se levantava da cama e estava muito fraquinha. Com os meus pais longe nesse fim de semana, fiz questão de ser eu a ir lá dar-lhe o jantar. Lembro-me de partir aos bocadinhos muito pequeninos a pescada, as batatas e as verduras. A minha avó já mal abria os olhos, excepto quando sabia que lhe ia dar mais uma garfada. Tinha perfeita noção que eu era uma desajeitada e para me ajudar na tarefa, olhava para mim e abria a boca o mais que conseguia...mesmo assim, queimei-lhe a língua, mas ela riu-se, condescendente.
Foi um processo que durou mais de 1 hora, pois as forças que lhe restavam já eram muito poucas. Não me importei, queria demorar-me ali, olhar para ela. Quis dizer-lhe de novo a ladaínha "minha querida, minha santa, meu doce, meu tesouro....", mas tinha a certeza que ia começar a chorar e não a queria perturbar. Hoje arrependo-me tanto, mas tanto de não o ter feito, ela teria ficado tão feliz de ouvir! Tanta coisa que não lhe disse.
Dei-lhe um beijo na testa e apertei-lhe a mão. Despedi-me com mais um beijo e fui sempre acenando e olhando para ela até dar a curva da porta. Ela acenava com a mão um "adeus" muito fraquinho. Assim que a deixei de a ver, voltei para trás para lhe fazer ainda mais uma festinha na mão e sorrir, "Até amanhã, avozinha!". Não sei o que me deu, mas algo me dizia que podia ser a última vez que nos víamos. E foi.
Um dia e meio depois, faleceu no hospital. Dia 17 de Novembro, nunca mais me esqueço.
Recebi a notícia pelo telefone quando estava no trabalho e, contrariamente ao que aconteceu quando soube da morte do meu avô, desmoronei ali mesmo, aos soluços. Doeu-me muito perder a minha avó, vai-me doer para sempre.
Todos os dias, em algum momento do dia, lembro-me dela. Por vezes ainda choro ao recordar-me das nossas histórias e dos nossos momentos. Faz-me muita falta falar com ela, ouvi-la, vê-la...As saudades são muitas e eternas.

Hoje foi o dia Mundial dos Avós e eu tive a sorte de ter tido os melhores do mundo.

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