terça-feira, 26 de julho de 2016

Dia dos avós #1

Hoje é o primeiro dia de comemoração, do resto da minha vida, sem nenhum dos meus avós.
Não cheguei a tempo de conhecer os meus avós paternos, mas a vida recompensou-me dessa perda e deu-me a felicidade de ter crescido com outros dois avós que valeram por mil.
Oriundos do Alentejo profundo, ali fizeram o seu percurso marcado pelas adversidades de uma vida difícil e madrasta.
Tiveram 3 filhos, mas passaram pela provação de terem perdido dois deles. Um, poucos dias depois de nascer e, após 14 anos, o outro, que sofria de paralisia cerebral.  A minha avó, mulher de armas, nunca baixou os braços. Trabalhava de dia no campo com "o menino ao lado, que não podia ficar sozinho" e, à noite, fazia queijos e a preparava as caixas com legumes e frutas para o meu avô vender de manhã. Durante 14 anos, fazia todos os meses o caminho para Lisboa de comboio com "o menino" ao colo e depois, na cadeira de rodas, para que ele não faltasse a nenhuma consulta. 
Apesar de todos os esforços, a luta terminou demasiado cedo. A minha avó nunca mais tirou o luto.
Apesar da vida dura e do pouco dinheiro, nunca deixaram de ter comida na mesa - essa era em abundância - e de dar a todos os que precisavam e que muitas vezes lhes batiam à porta. Humildes, sempre foram pessoas de um enorme coração, bem formados e com os bons princípios e valores sempre presentes.
Fizeram questão que a minha mãe estudasse e "que fosse mais longe do que eles", como sempre dizia a minha avó. E conseguiram.

Eu fui lá nascer. Desde o meu primeiro dia de vida, ganhei uma ligação àquele sítio que até hoje permanece. Foram mais de 12 anos que, por escolha própria e entusiasmada, passei os meses de Verão naquele monte com os meus avós.
Seguia-os para todo o lado. Fazia questão de ajudar a alimentar todos os animais, ia colher os frutos e os legumes da horta, implorava para dar o biberão aos borreguinhos bebés, queria amassar o pão com a minha avó, não prescindia de ir de carroça com o meu avô para a venda, mexer na balança, e qual comerciante nata, dizer os preços e colocar os produtos nos sacos. De regresso, passávamos pelo mercado e às vezes trazíamos uma caixa cheia de pintainhos amarelos. 
Brinquei muitas vezes com flechas feitas de madeira pelo meu avô, dancei enquanto ele tocava a sua concertina e à noite - depois de ajudar a lavar a loiça nos alguidares - sentávamo-nos lá fora "à fresca", falávamos e observávamos o paciente ritual de caça das aranhas junto à luz da parede - "olha, uma já está", dizia o meu avô.

Mas a minha grande paixão era a minha avó.
Desde pequenina que dizíamos uma à outra uma "arreata" de nomes fofinhos: "minha querida, minha santa, meu doce, meu tesouro". Foram centenas de vezes que a minha avó contou a história de quando eu, com menos de 2 anos, ia ao colo dela ouvindo-a dizer "minha querida, meu doce, meu tesouro..." e eu a interrompi: "Tanta, tanta". Só depois de muito esforço é que a minha avó percebeu o que eu queria dizer: "Eu tinha-me esquecido de dizer "santa" e tu notaste porque já sabias a ladainha de cor. Quando eu perguntei "Santa?", esbracejaste e pulaste de alegria, parecia que querias saltar do meu colo, como que a dizer "finalmente percebeste!". Esta foi a última história que ouvi a minha avó contar, pela enésima vez, antes de falecer.
Eu não a largava, fazia tudo com ela e ela fazia tudo por mim. Pedia-lhe mil vezes para contar as histórias de quando ela era pequenina e andava na escola, de quando a minha mãe era pequenina, de como foi o seu casamento, como cuidou do meu tio, de como viveu a sua vida. E mesmo já sabendo de cor todas as histórias, perguntava de novo e, enquanto a ouvia, eu viajava no tempo, imaginando com pormenor como tudo tinha sido.
Enquanto escrevo, são tantas as histórias vividas com a minha avó que me vêm à memória, que seria impossível resumir tudo num pequeno ("pequeno"?) texto. Num livro, talvez.
E aquela vez que eu quis dormir com um patinho bebé na cama? Tanto andei com ele ao colo, que o matei sem querer. Chorei e pedi à minha avó um funeral para o pato, com direito e uma cruz e a um texto, para memória futura, ditado por mim e escrito por ela nas costas de um envelope velho: "O patinho Qué-Qué".
E aquela vez que eu, na minha casa e longe do Alentejo, não percebia um problema de Matemática e liguei, para que a minha avó o resolvesse por mim? "Mas ó filha, olha o dinheiro que estás a gastar com a chamada! Se a tua mãe te apanha, zanga-se.", ao que respondi com ar de vilã de novela: "Não te preocupes, eu sei disfarçar bem.". Ainda hoje guardo a folha com o problema resolvido pela minha avó, que mais tarde ela me deu de recordação. Era sobre as medidas de peso - coisa tão simples!
E aquela vez que eu lhe pedi para vestir o vestido de noiva dela? A preocupação da minha avó em encontrar o "vestido perdido há décadas" durou dias. Encontrámo-lo num saco, pendurado na cavalariça...atrás da mula. Ainda há pouco tempo, de mãos dadas, chorámos a rir a recordar isto.

Foram tempos felizes. Tempos que terminaram cedo demais e que não voltam.

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