Quando fiz 12 anos, tudo mudou.
O meu avô foi vítima de um acidente vascular cerebral e ficou incapacitado para todo o sempre, sem andar e sem falar.
A minha avó, com os seus crescentes problemas ósseos, não tinha capacidade para tratar sozinha do meu avô e, simultaneamente, cuidar da casa, dos animais e do campo.
De um dia para o outro, os meus avós tiveram de abandonar a sua terra, a sua casa, a sua vida e vir viver connosco, longe de tudo o que eles conheciam. No espaço de um mês, os animais tiveram de ser mortos, os frutos foram deixados nas árvores e aquela casa foi fechada, com a promessa de que um dia eles voltariam para passarem lá os seus últimos dias...essa promessa nunca foi cumprida.
De cuidadores, passaram a ser cuidados.
Lembro-me de passar as tardes com livros ilustrados abertos em cima do colo, a tentar que o meu avô conseguisse articular algumas palavras e reaprendesse a falar "Que bicho é este, avô? Uma ga...li...nha. Isso mesmo". Ainda conseguiu dizer algumas palavras.
Lembro-me de muitas vezes o vestir de manhã, de o levar para o quarto, pôr-lhe o pijama e deitá-lo, de ir buscar uma bacia com água e lavar-lhe os dentes com calma. Eu passava horas a contar-lhe o meu dia e as minhas coisas. Ele ia-se rindo, não falava, mas percebia tudo.
Ria-se muito, fazia disparates como as crianças e gargalhava até começar a tossir. Costumávamos dizer que o AVC levou-lhe o andar e o mau feitio...depois da desgraça e apesar dela, ficou um homem cheio de bom humor.
Uma vez, durante aquele ritual de o tirar da cadeira de rodas e transferir para a cama, o meu avô escorregou e caiu no chão. Eu era uma fraca figura com 13 ou 14 anos e ele era um homem pesado de 1,80 metros. A minha avó, dramática que só ela, entrou em pânico "E agora? Ai que tu não consegues, ai que o homem me fica aí a noite toda, ai que desgraça!"; eu, sem saber como ia resolver aquilo, lá mantive a calma. Foi uma operação que durou quase 1 hora. Ora puxava por baixo dos braços, ora o empurrava por baixo do rabo, ora lhe puxava as calças. Ele ria-se e, enquanto se ria, perdia as forças para me ajudar. Derreei-me toda, mas lá consegui, já nem me lembro como. Nunca contámos aos meus pais, segredinho só nosso - meu e da minha avó, claro, que com o silêncio do meu avô já nós contávamos.
Foram mais de 10 anos que viveram connosco e, depois do meu avô falecer e de a minha avó perder totalmente a mobilidade, passaram-se 11 anos em que a minha avó viveu no lar que entretanto foi construído atrás da minha casa. Da minha janela, quase que era possível ver a janela do quarto dela.
Decorria o Euro 2004 quando o meu avô começou a ter complicações e teve de ser levado para o hospital, de onde nunca mais regressou. Eu, apesar de ver a situação muito difícil, enganava-me a mim própria e pensava sempre que tudo ia ficar bem. Fiz a minha vida normal e, intercalando com as visitas ao hospital, ainda consegui entrar no espírito louco em que o país se encontrava.
Mas ele não melhorou.
Lembro-me, como se tivesse sido hoje, da imagem do meu pai a abrir a porta de casa e, com o olhar e um encolher de ombros, nem precisou falar. Eu percebi.
Não chorei e mantive-me sempre calma. Senti culpa por isso, "será que sou uma pedra?", pensei tantas vezes. Sofri muito, mas a esta distância, talvez consiga entender que eu simplesmente não estava habituada a perder ninguém e, naquele momento, nem senti como se fosse verdade.
As minhas lágrimas chegaram no momento do enterro. Aquele ritual, naquele cemitério onde eu estivera antes tantas vezes com ele ainda vivo e agora, ali estávamos, juntos pela última vez.
Sou talvez demasiado racional, analiso cada segundo como se fosse uma hora, disseco cada gesto, olho em volta e registo tudo na memória para sempre. E é quando termino este processo que percebo que é real e me cai tudo. Foi o que me aconteceu.
Foi no dia do jogo Portugal-Grécia. E enquanto o país chorava por ter perdido a final do Euro, eu chorava por ter perdido o meu avô.
Mas ele não melhorou.
Lembro-me, como se tivesse sido hoje, da imagem do meu pai a abrir a porta de casa e, com o olhar e um encolher de ombros, nem precisou falar. Eu percebi.
Não chorei e mantive-me sempre calma. Senti culpa por isso, "será que sou uma pedra?", pensei tantas vezes. Sofri muito, mas a esta distância, talvez consiga entender que eu simplesmente não estava habituada a perder ninguém e, naquele momento, nem senti como se fosse verdade.
As minhas lágrimas chegaram no momento do enterro. Aquele ritual, naquele cemitério onde eu estivera antes tantas vezes com ele ainda vivo e agora, ali estávamos, juntos pela última vez.
Sou talvez demasiado racional, analiso cada segundo como se fosse uma hora, disseco cada gesto, olho em volta e registo tudo na memória para sempre. E é quando termino este processo que percebo que é real e me cai tudo. Foi o que me aconteceu.
Foi no dia do jogo Portugal-Grécia. E enquanto o país chorava por ter perdido a final do Euro, eu chorava por ter perdido o meu avô.
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