terça-feira, 2 de agosto de 2016

Solidariedade feminina é...

Ver uma rapariga no estacionamento a tentar pegar o carro e não conseguir. 
Perguntar se posso ajudar (!) e ficarmos ali, as duas a olhar para o dito cujo. A vela-lo. 

sábado, 30 de julho de 2016

Estamos tão moderninhos

Excepcionalmente, hoje sentei-me no sofá e vi a programação infantil da SIC. E já percebi porque os adolescentes de 14 anos de hoje sabem mais do que eu aos 32.
Desde luta, sangue, insinuações sexuais, orgias, prostituição e festas lésbicas, há de tudo.
Terminou com um jeitoso a tirar a roupa para mergulhar num lago. O amigo, caindo-lhe o olho para o óbvio, concluiu: "Não sei como não vai ao fundo. Com essa "âncora"...Eu também não me posso queixar. Só ando um pouquinho frouxo."
E é isto. Eu tinha os Power Rangers e Motoratos de Marte. 
Tive de fazer todo um longo percurso sozinha. É injusto.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Ai filha, sua gooorda!

A inteligência e virilidade de um homem caem totalmente por terra a partir do momento em que, depois de ouvir uma nega, o único argumento que consegue articular é "Sua gorda!"
Sua. Gorda.
Chorei a rir com tamanha complexidade de raciocínio-de-miss-mundo-ofendida.

*Isto não aconteceu comigo, mas com uma amiga minha que, por sinal, é quase tão elegante como uma Gisele Bundchen.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Dia dos avós #3

Pouco tempo depois do meu avô falecer, a minha avó também perdeu o andar e não havendo ninguém para dar apoio permanente, teve de ir para o lar atrás da minha casa.
Todos os dias a minha mãe a visitava e lhe levava as coisas que ela gostava e que lhe faziam lembrar o Alentejo. "Trouxeste as azeitoninhas?", "E os figos? Já estamos no tempo dos figos!"
Apesar de não andar, a minha avó sempre manteve uma lucidez e uma cabeça invejáveis. Estava sempre atenta a tudo, não lhe escapava nada e quando os familiares dos outros utentes queriam saber se eles estavam a ser bem cuidados, era à minha avó que perguntavam. Ela era o Relatório Médico em pessoa.
Eu só podia ir visitá-la ao fim de semana e, apesar de já não estarmos juntas todos os dias, a conversa era toda posta em dia durante aquela hora que eu lá estava. E falávamos sobre tudo, sobre os  meus namorados - "Ai, filha, deixa-o! Atão tu não vês que isso não vai a lado nenhum?", sempre assertiva, a minha avó - sobre as peripécias do trabalho e, mais uma vez, revivíamos as mesmas histórias de sempre. 
Ela adorava recordar, entre risos, aquela vez em que eu aos 8 ou 9 anos, já de luz apagada e pronta para dormir, lhe perguntei como se faziam os bebés. A minha avó nunca deu importância a histórias da cegonha e a todas metáforas que se usam para se explicar o processo aos miúdos. Aliás, a minha avó arrumou a "história" dela em 2 palavras: "Faz-se sexo". Toma e embrulha e eu, se quisesse, que fosse ao dicionário saber o que é sexo. Ela era assim, sem grandes "ai meu Deus", muito directa aos assuntos. Às vezes eu é que ficava surpreendida com tanta abertura, ao que ela me respondia "Que queres? Tenho de me modernizar!".
Foram muitos anos de uma rotina instalada, confortável, segura. E depois de tanto tempo passado desde a morte do meu avô, aos poucos, comecei novamente a cair no erro de achar que a minha avó seria imortal, que ia estar sempre ali e que nunca ia desaparecer. Tinha umas recaídas, mas recuperava sempre, sorridente. Habituou-me mal.
Foi depois de fazer 90 anos, no último ano, que as crises que a levavam ao hospital foram sendo mais frequentes. Tantas vezes que saí tarde do trabalho e fui, já à pressa, para o hospital para chegar a tempo de lhe dar o jantar.
Aos poucos, fui vendo menos esperança naqueles olhos. Ela, que tinha pavor de perder a lucidez - "Que Deus me leve antes de começar a dizer disparates como as outras velhas malucas. Não ando, mas tenho a minha cabeça muito boa." - de vez em quando, muito subtilmente, lá ia falhando um ou outro pormenor que denunciava que algo já não estava bem. Na minha ânsia de me certificar que ela mantinha o raciocínio rápido, de vez em quando atirava-lhe com perguntas como "Quanto é 7x9? Rápido!". Antes de eu acabar a frase (e de pensar no resultado), já ela, com uma expressão incrédula e desconfiada, estava a responder "56! Ora ora, cuidas que 'tou parva?". Era então que eu percebia o ridículo da minha pergunta...a minha avó era e sempre seria imbatível na tabuada, nos nomes dos rios, nos pronomes e noutras tantas coisas. Soube tudo isto até praticamente a hora da morte.
Tal como ela havia pedido tanto, Deus poupou-a de "ficar maluca" e de perder a noção total do mundo que a rodeava.

Foi um mês antes da sua morte que a minha avó perdeu a fala. Deve ter tido um AVC que a calou, mas estou certa que não lhe tirou aquela desconcertante capacidade de compreender as coisas e o mundo. Percebia tudo o que lhe dizíamos e sempre me reconheceu, até ao fim. Revelava-o através do sorriso rasgado que fazia sempre que me via.
Foi assim mesmo que me recebeu, no último dia que a vi com vida.
Era domingo. A minha avó já não se levantava da cama e estava muito fraquinha. Com os meus pais longe nesse fim de semana, fiz questão de ser eu a ir lá dar-lhe o jantar. Lembro-me de partir aos bocadinhos muito pequeninos a pescada, as batatas e as verduras. A minha avó já mal abria os olhos, excepto quando sabia que lhe ia dar mais uma garfada. Tinha perfeita noção que eu era uma desajeitada e para me ajudar na tarefa, olhava para mim e abria a boca o mais que conseguia...mesmo assim, queimei-lhe a língua, mas ela riu-se, condescendente.
Foi um processo que durou mais de 1 hora, pois as forças que lhe restavam já eram muito poucas. Não me importei, queria demorar-me ali, olhar para ela. Quis dizer-lhe de novo a ladaínha "minha querida, minha santa, meu doce, meu tesouro....", mas tinha a certeza que ia começar a chorar e não a queria perturbar. Hoje arrependo-me tanto, mas tanto de não o ter feito, ela teria ficado tão feliz de ouvir! Tanta coisa que não lhe disse.
Dei-lhe um beijo na testa e apertei-lhe a mão. Despedi-me com mais um beijo e fui sempre acenando e olhando para ela até dar a curva da porta. Ela acenava com a mão um "adeus" muito fraquinho. Assim que a deixei de a ver, voltei para trás para lhe fazer ainda mais uma festinha na mão e sorrir, "Até amanhã, avozinha!". Não sei o que me deu, mas algo me dizia que podia ser a última vez que nos víamos. E foi.
Um dia e meio depois, faleceu no hospital. Dia 17 de Novembro, nunca mais me esqueço.
Recebi a notícia pelo telefone quando estava no trabalho e, contrariamente ao que aconteceu quando soube da morte do meu avô, desmoronei ali mesmo, aos soluços. Doeu-me muito perder a minha avó, vai-me doer para sempre.
Todos os dias, em algum momento do dia, lembro-me dela. Por vezes ainda choro ao recordar-me das nossas histórias e dos nossos momentos. Faz-me muita falta falar com ela, ouvi-la, vê-la...As saudades são muitas e eternas.

Hoje foi o dia Mundial dos Avós e eu tive a sorte de ter tido os melhores do mundo.

Dia dos avós #2

Quando fiz 12 anos, tudo mudou.
O meu avô foi vítima de um acidente vascular cerebral e ficou incapacitado para todo o sempre, sem andar e sem falar.
A minha avó, com os seus crescentes problemas ósseos, não tinha capacidade para tratar sozinha do meu avô e, simultaneamente, cuidar da casa, dos animais e do campo. 
De um dia para o outro, os meus avós tiveram de abandonar a sua terra, a sua casa, a sua vida e vir viver connosco, longe de tudo o que eles conheciam. No espaço de um mês, os animais tiveram de ser mortos, os frutos foram deixados nas árvores e aquela casa foi fechada, com a promessa de que um dia eles voltariam para passarem lá os seus últimos dias...essa promessa nunca foi cumprida.
De cuidadores, passaram a ser cuidados. 
Lembro-me de passar as tardes com livros ilustrados abertos em cima do colo, a tentar que o meu avô conseguisse articular algumas palavras e reaprendesse a falar "Que bicho é este, avô? Uma ga...li...nha. Isso mesmo". Ainda conseguiu dizer algumas palavras.
Lembro-me de muitas vezes o vestir de manhã, de o levar para o quarto, pôr-lhe o pijama e deitá-lo, de ir buscar uma bacia com água e lavar-lhe os dentes com calma. Eu passava horas a contar-lhe o meu dia e as minhas coisas. Ele ia-se rindo, não falava, mas percebia tudo. 
Ria-se muito, fazia disparates como as crianças e gargalhava até começar a tossir. Costumávamos dizer que o AVC levou-lhe o andar e o mau feitio...depois da desgraça e apesar dela, ficou um homem cheio de bom humor.
Uma vez,  durante aquele ritual de o tirar da cadeira de rodas e transferir para a cama, o meu avô escorregou e caiu no chão. Eu era uma fraca figura com 13 ou 14 anos e ele era um homem pesado de 1,80 metros. A minha avó, dramática que só ela, entrou em pânico "E agora? Ai que tu não consegues, ai que o homem me fica aí a noite toda, ai que desgraça!"; eu, sem saber como ia resolver aquilo, lá mantive a calma. Foi uma operação que durou quase 1 hora. Ora puxava por baixo dos braços, ora o empurrava por baixo do rabo, ora lhe puxava as calças. Ele ria-se e, enquanto se ria, perdia as forças para me ajudar. Derreei-me toda, mas lá consegui, já nem me lembro como. Nunca contámos aos meus pais, segredinho só nosso - meu e da minha avó, claro, que com o silêncio do meu avô já nós contávamos.
Foram mais de 10 anos que viveram connosco e, depois do meu avô falecer e de a minha avó perder totalmente a mobilidade, passaram-se 11 anos em que a minha avó viveu no lar que entretanto foi construído atrás da minha casa. Da minha janela, quase que era possível ver a janela do quarto dela.
Decorria o Euro 2004 quando o meu avô começou a ter complicações e teve de ser levado para o hospital, de onde nunca mais regressou. Eu, apesar de ver a situação muito difícil, enganava-me a mim própria e pensava sempre que tudo ia ficar bem. Fiz a minha vida normal e, intercalando com as visitas ao hospital, ainda consegui entrar no espírito louco em que o país se encontrava.
Mas ele não melhorou. 
Lembro-me, como se tivesse sido hoje, da imagem do meu pai a abrir a porta de casa e, com o olhar e um encolher de ombros, nem precisou falar. Eu percebi.
Não chorei e mantive-me sempre calma. Senti culpa por isso, "será que sou uma pedra?", pensei tantas vezes. Sofri muito, mas a esta distância, talvez consiga entender que eu simplesmente não estava habituada a perder ninguém e, naquele momento, nem senti como se fosse verdade. 
As minhas lágrimas chegaram no momento do enterro. Aquele ritual, naquele cemitério onde eu estivera antes tantas vezes com ele ainda vivo e agora, ali estávamos, juntos pela última vez. 
Sou talvez demasiado racional, analiso cada segundo como se fosse uma hora, disseco cada gesto, olho em volta e registo tudo na memória para sempre. E é quando termino este processo que percebo que é real e me cai tudo. Foi o que me aconteceu.

Foi no dia do jogo Portugal-Grécia. E enquanto o país chorava por ter perdido a final do Euro, eu chorava por ter perdido o meu avô. 

Dia dos avós #1

Hoje é o primeiro dia de comemoração, do resto da minha vida, sem nenhum dos meus avós.
Não cheguei a tempo de conhecer os meus avós paternos, mas a vida recompensou-me dessa perda e deu-me a felicidade de ter crescido com outros dois avós que valeram por mil.
Oriundos do Alentejo profundo, ali fizeram o seu percurso marcado pelas adversidades de uma vida difícil e madrasta.
Tiveram 3 filhos, mas passaram pela provação de terem perdido dois deles. Um, poucos dias depois de nascer e, após 14 anos, o outro, que sofria de paralisia cerebral.  A minha avó, mulher de armas, nunca baixou os braços. Trabalhava de dia no campo com "o menino ao lado, que não podia ficar sozinho" e, à noite, fazia queijos e a preparava as caixas com legumes e frutas para o meu avô vender de manhã. Durante 14 anos, fazia todos os meses o caminho para Lisboa de comboio com "o menino" ao colo e depois, na cadeira de rodas, para que ele não faltasse a nenhuma consulta. 
Apesar de todos os esforços, a luta terminou demasiado cedo. A minha avó nunca mais tirou o luto.
Apesar da vida dura e do pouco dinheiro, nunca deixaram de ter comida na mesa - essa era em abundância - e de dar a todos os que precisavam e que muitas vezes lhes batiam à porta. Humildes, sempre foram pessoas de um enorme coração, bem formados e com os bons princípios e valores sempre presentes.
Fizeram questão que a minha mãe estudasse e "que fosse mais longe do que eles", como sempre dizia a minha avó. E conseguiram.

Eu fui lá nascer. Desde o meu primeiro dia de vida, ganhei uma ligação àquele sítio que até hoje permanece. Foram mais de 12 anos que, por escolha própria e entusiasmada, passei os meses de Verão naquele monte com os meus avós.
Seguia-os para todo o lado. Fazia questão de ajudar a alimentar todos os animais, ia colher os frutos e os legumes da horta, implorava para dar o biberão aos borreguinhos bebés, queria amassar o pão com a minha avó, não prescindia de ir de carroça com o meu avô para a venda, mexer na balança, e qual comerciante nata, dizer os preços e colocar os produtos nos sacos. De regresso, passávamos pelo mercado e às vezes trazíamos uma caixa cheia de pintainhos amarelos. 
Brinquei muitas vezes com flechas feitas de madeira pelo meu avô, dancei enquanto ele tocava a sua concertina e à noite - depois de ajudar a lavar a loiça nos alguidares - sentávamo-nos lá fora "à fresca", falávamos e observávamos o paciente ritual de caça das aranhas junto à luz da parede - "olha, uma já está", dizia o meu avô.

Mas a minha grande paixão era a minha avó.
Desde pequenina que dizíamos uma à outra uma "arreata" de nomes fofinhos: "minha querida, minha santa, meu doce, meu tesouro". Foram centenas de vezes que a minha avó contou a história de quando eu, com menos de 2 anos, ia ao colo dela ouvindo-a dizer "minha querida, meu doce, meu tesouro..." e eu a interrompi: "Tanta, tanta". Só depois de muito esforço é que a minha avó percebeu o que eu queria dizer: "Eu tinha-me esquecido de dizer "santa" e tu notaste porque já sabias a ladainha de cor. Quando eu perguntei "Santa?", esbracejaste e pulaste de alegria, parecia que querias saltar do meu colo, como que a dizer "finalmente percebeste!". Esta foi a última história que ouvi a minha avó contar, pela enésima vez, antes de falecer.
Eu não a largava, fazia tudo com ela e ela fazia tudo por mim. Pedia-lhe mil vezes para contar as histórias de quando ela era pequenina e andava na escola, de quando a minha mãe era pequenina, de como foi o seu casamento, como cuidou do meu tio, de como viveu a sua vida. E mesmo já sabendo de cor todas as histórias, perguntava de novo e, enquanto a ouvia, eu viajava no tempo, imaginando com pormenor como tudo tinha sido.
Enquanto escrevo, são tantas as histórias vividas com a minha avó que me vêm à memória, que seria impossível resumir tudo num pequeno ("pequeno"?) texto. Num livro, talvez.
E aquela vez que eu quis dormir com um patinho bebé na cama? Tanto andei com ele ao colo, que o matei sem querer. Chorei e pedi à minha avó um funeral para o pato, com direito e uma cruz e a um texto, para memória futura, ditado por mim e escrito por ela nas costas de um envelope velho: "O patinho Qué-Qué".
E aquela vez que eu, na minha casa e longe do Alentejo, não percebia um problema de Matemática e liguei, para que a minha avó o resolvesse por mim? "Mas ó filha, olha o dinheiro que estás a gastar com a chamada! Se a tua mãe te apanha, zanga-se.", ao que respondi com ar de vilã de novela: "Não te preocupes, eu sei disfarçar bem.". Ainda hoje guardo a folha com o problema resolvido pela minha avó, que mais tarde ela me deu de recordação. Era sobre as medidas de peso - coisa tão simples!
E aquela vez que eu lhe pedi para vestir o vestido de noiva dela? A preocupação da minha avó em encontrar o "vestido perdido há décadas" durou dias. Encontrámo-lo num saco, pendurado na cavalariça...atrás da mula. Ainda há pouco tempo, de mãos dadas, chorámos a rir a recordar isto.

Foram tempos felizes. Tempos que terminaram cedo demais e que não voltam.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

A vida num sopro

Para onde um ia, o outro ia também. Sempre juntos, lado a lado.
Todos os dias, há mais de 20 anos, quando eu entrava no café depois do almoço, lá estavam eles, invariavelmente sentados no mesmo sítio. Escolhiam sempre a mesa junto à porta. 
Ele, em silêncio, lia o jornal que ocupava quase todo o tampo. Ela, depois de folhear apressadamente as revistas que trazia, levantava-se. Rebiteza, colava-se ao balcão e falava ininterruptamente com a "Fatinha", dona do café. Aposto que fazia quilómetros durante aquela hora, andando ora para a esquerda ora para a direita, contando as suas histórias enquanto a Fatinha, atarefada de um lado para o outro, aviava pães, bolos e cafés. Era disso que ela gostava, era para isso que ela lá ia todos os dias.
Tinham cerca de 75 anos e uma boa vida. 
Com dinheiro em abundância, não se privavam de pequenos luxos. Ela vestia-se e maquilhava-se a rigor. Apesar dos problemas ósseos que lhe deformaram os pés, não prescindia dos seus sapatos de salto com 12 centímetros, da roupa de marca impecavelmente conjugada, da mala e acessórios a fazerem pandam. Ele era mais discreto. Sempre com o cabelo grisalho muito bem penteado, barba irrepreensivelmente aparada e umas calças de sarja que combinavam com a camisa de tons suaves. Um homem extremamente bem conservado e muito charmoso para a idade.
Nunca tiveram filhos por opção, para poderem namorar, sair e passear muito. Para "aproveitarem a vida", como ela dizia sempre. Os seus "filhotes" eram os cães e os gatos que adoptavam e os cães dos vizinhos, que faziam questão de ir buscar e passear diariamente.
Tiveram, durante mais de uma década, um cãozinho rafeiro que os acompanhava ao café. Coxo e com artroses, ele saltava do carro e deitava-se no tapete à porta do café, sabendo bem que no final tinha sempre como recompensa o pãozinho com manteiga que a dona comprava e lhe dava à boca, pedacinho a pedacinho.
Era com admiração que eu olhava para aquele casal tão unido, tão dedicado um ao outro.
Em 2012, tivemos um pequeno desentendimento. Certo dia, entrou um velhota no café que, percorrendo as mesas, ia pedindo uma moedinha a quem que ali se encontrava. Eu dei-lhe as poucas moedas que ainda tinha, e foi com o coração apertado que a ouvi agradecer mil e uma vezes, "Que Deus a abençoe sempre". Caramba, eu só lhe tinha dado uns 60 ou 70 cêntimos...! Quando a velhota parou na mesa deles, ao meu lado, nenhum lhe respondeu. Com os olhos sempre postos no jornal, deixaram a a senhora ali parada, invisível, à espera de uma palavra, de um gesto, de um olhar, até que desistiu. Fiquei indisposta com aquilo e quando a velhota abandonou o café, não fui capaz de ficar calada. Disse-lhes que aquela cena tinha sido indecente. Quem se preocupa em comprar todos os dias um pãozinho com manteiga para o cão, não pode deixar de tratar as pessoas como pessoas. A vida já tinha tirado tanto àquela velhota e eles, em menos de um minuto, tentaram tirar-lhe também a dignidade. Deplorável.
Fiquei muito desiludida e nos anos que se seguiram, pouco mais lhes disse do que o simples "boa tarde".
Só há cerca de um ano é que me fui "esquecendo" um pouco daquele episódio. O meu cão, mimado que só ele, não lhes dava hipótese quando os via. Alapava o focinho na perna dela, que, derretida, não se importava nada com a mancha de baba que ele lhe deixava na roupa cara. "Posso dar-lhe a minha torrada? Faz-me tanto lembrar o meu Joca, que adorava pão com manteiga!". E pronto, estes pequenos diálogos, lá foram amansando o meu mau feitio.
Apesar de a nossa relação nunca mais ter sido a mesma coisa, eu observava sempre enternecida aquela rotina: ele saía do café antes dela para ir buscar o carro que estacionava à porta, só para lhe poupar os pés massacrados pelos sapatos. Ainda a semana passada  comentei com o meu pai que, para mim, este era um gesto de amor e de cuidado. Era assim que eu queria que fosse comigo, daqui a muitos anos.

Ontem cheguei à praia já tarde. Tinha ficado na ronha, a arrastar as tarefas básicas de almoçar, vestir, cuidar do cão. Antes de sair ainda me sentei no sofá a fazer zapping. Embora seja canal que nunca vejo, parei uns minutos a ver uma notícia "sensacionalista" da CMTV. Um casal tinha acabado de ter um acidente na CRIL, junto ao túnel do Grilo. Despistou-se e caiu do viaduto abaixo, tendo tido morte imediata. Nem uma hora passada e já lá estavam os "abutres", a acompanhar em directo o desencarceramento. Senti pena pelo casal e náuseas por fazerem daquilo espectáculo. Poucos minutos depois, não quis saber mais. Desliguei a televisão e fui à minha vida.

Hoje, novamente na praia, punha a conversa em dia com uma amiga que não via há algum tempo. Os últimos meses (dois anos, na verdade) foram um turbilhão. Lamentava-me por ter perdido alguém tão importante para mim, não o namorado, mas a Pessoa. Não sei nada dele, não temos pessoas comuns, moramos longe um do outro, e por isso tenho medo de não o voltar a ver mais, saber se está bem, se conseguiu ser feliz. Ela interrompeu-me para dizer que nada acontece por acaso, a vida dá voltas e prega partidas cujo sentido, às vezes, só encontramos muitos e muitos anos depois. 
Para ilustrar isto, deu o exemplo de um casal, vizinho da porta ao lado, que dedicou a vida um ao outro. Fizeram sempre tudo juntos, nunca quiseram estar um sem o outro. E ontem, a caminho de mais um passeio feliz a dois, morreram num acidente de carro, depois de se despistarem na CRIL.
Fiquei em choque. Eram eles. A notícia que eu vi na CMTV, era sobre eles.
Desde então ainda não consegui abstrair-me disto e estou aqui sem conseguir deitar-me e adormecer. De repente esqueci a cena da velhota, a desilusão, tudo. Ficou só a pena e a tristeza de nunca mais ver aquele casal sentado na mesa junto à porta do café. Ainda tão novos, ainda com tanta vontade de passarem muitos anos na companhia um do outro.
Ainda sexta feira os vi e hoje já cá não estão. A vida vai-se num sopro e não podemos desperdiçar demasiado tempo a lamentar o que não podemos mudar, por mais duro que seja perder a pessoa que quisemos que, um dia, estivesse sentada connosco naquela mesa de café.
Apazigua-me, pelo menos, saber que morreram como sempre viveram: felizes e juntos.