Mentira. Ainda não é hoje que saio.
Contrariamente a (quase) todos os pontapés de saída de um blogue, este não é um post para "os outros", com uma mensagem alegre de quem apresenta a sua nova casa aos convidados.
Saio do armário precisamente no dia em que mais me apetece estar fechada e protegida dentro dele.
Sigo blogues há dez anos, há mais de cinco que volta e meia me passa pela cabeça começar escrever e há quase três criei um, que tem estado em branco até hoje.
Sempre fui meia avessa à exposição própria, ao reconhecimento pelo nome, ainda que fictício. Talvez por isso nunca fale sobre sentimentos e estados de espírito nas redes sociais e raramente comente os blogues que leio.
Quando sinto necessidade de "gritar", acabo sempre por me expressar através de uma piada, de uma ironia bem humorada, por expor as minhas peripécias diárias e o meu lado menos sério que pouco ou nada diz sobre o que estou a sentir. É como se estivesse a fazer pontaria a um alvo, convicta de que vou acertar no centro, mas no último momento acabe, invariavelmente, por acertar em qualquer coisa que está dois metros ao lado. Uma falta de jeito propositada.
É engraçado e quase irónico que a minha vida profissional passe exactamente pela necessária exposição de ter de escrever o que me parece sobre vários assuntos relativos à vida de outras pessoas, mas depois, seja tão difícil escrever sobre mim. Que raio!
Só que as coisas difíceis costumam ser assim mesmo: complicadas de sair, cheias de senãos, receios e dúvidas.
Hoje decidi-me.
Fui movida pelo sentimento sufocante daquilo que se passou comigo ontem, que nunca imaginei vir a passar e acho que jamais terei coragem de partilhar com alguém que conheço. Uma imagem gravada na minha memória, que passa em flashes vezes e vezes sem conta e que não me deixa descansar.
Hoje só uma voz teria o poder de me acalmar. Só um abraço seria capaz de aliviar isto que tenho cá dentro e levar-me de volta para o conforto daquilo que conheço e que me faz sentir bem e protegida...em "casa". Precisava tanto!
Não falarei sobre o assunto, mas percebi que pelo menos é reconfortante ter um sítio onde podemos escrever o que nos apetece: seja bom ou mau, seja sobre tudo ou sobre nada, elaborado ou só parvo, mais ligeiro ou mais sério, independentemente de vir a ser lido pelo mundo inteiro, por três pessoas ou apenas por mim.
Não me interessa agora. Será o que eu quiser, quando eu quiser. Sem regras nem pressões.
Por ora, abrirei apenas a porta do armário e ficarei, duvidosa e ainda a medo, a espreitar lá para fora.
Pode ser que um dia me decida a sair de vez.
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